Estúdio Móvel

Projeto de experimentação de linguagem em áudio e vídeo

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O clipe

O que é o Estúdio Móvel

O Estúdio Móvel é uma iniciativa da Viraminas Associação Cultural, de Três Corações, como parte da ação Museu da Oralidade. A iniciativa é um desdobramento do projeto Mestres no Estúdio, que reuniu cinco mestres de cultura popular para a gravação de composições baseadas em suas respectivas histórias de vida. As canções, que relatam a vida dos personagens abordados em ritmos dos quais são mestres (catira, terço de São Gonçalo, samba-enredo, folia de reis e congado), integraram um álbum, gravado e mixado no estúdio da Viraminas.

Desta vez, a proposta envolveu gravar grupos e artistas cantando uma mesma canção. A ideia, entretanto, vai além da simples gravação: contempla a experimentação dos softwares livres, de código aberto, para produção de conhecimento acerca da produção de áudio e vídeo. O uso de software livre faz parte da filosofia da Viraminas. No caso, adotamos os programas kdenlive para edição de vídeo e ardour como plataforma de áudio digital. O compartilhamento da experiência faz parte do processo.

A canção

A música Vissungo, criada para o projeto, é de autoria de Ronildo Prudente, integrante e pesquisador da Viraminas, que trabalha com composições e tem um grande número de contribuições para os projetos da associação. A letra remete aos Vissungos, cantos de pessoas escravizadas da região de Diamantina, no alto do vale do rio Jequitinhonha, em Minas Gerais. Esses cantos, em línguas nativas como iorubá e bantu, eram entoados em todo tipo de ocasião: trabalho, morte, nascimento, aniversário. Os vissungos eram ainda importante mecanismo de transmissão de conhecimentos, pois falavam de hábitos, crenças e valores1.

Vissungo

(Ronildo Prudente)

O primeiro palco foi terra batida
E a fantasia tinha os pés no chão

Cantigas dos velhos herdada em família
Colhida nos pousos de mutirão

É de lá essa raiz
De festejo e louvação
É de lá essa raiz
Vem de lá essa canção

Toda canção pode ser de ninar
Se ajuda a sonhar, se ajuda a crescer
E toda cantiga colhida na infância já era anciã
E toda cantiga de luta e labuta esquecida
Já foi trovada em Quilombo no Sol das Manhãs

E já rodou roda de ciranda
Já rodou e ainda faz ciranda rodar

Foi do tempo que o tataravô do vô
Ainda era muriquinho lá do outro lado do mar
Já se cantava cantiga do meio dia
De trabalho, de caminho e de licença
Me dá licença que eu vou cantar meu boiado
Só não vou cantar dobrado porque
Não encontro par

Eu vou cantar o meu vissungo
Meu canto Banto do Quilombo do Dumbá
Dona da casa "emo quá" peço licença
Meu canto é de resistência
Eu trouxe do além mar

Já foi cantada na enxada e no tambor
Já foi lamento de chicote e incelênça
Foi Louvação de fuga e de livramento
O canto bento do outro lado do mar

Imagens

Estúdio Móvel

Histórico do projeto

O início do trabalho do Museu da Oralidade foi em 2008, em Luminárias (MG), quando gravamos de forma voluntária 27 idosos da cidade para escrever um livro com essas memórias. Esse projeto resultou na nossa primeira aprovação em edital e levou à criação da nossa associação para que pudéssemos captar recursos e reunir pessoas em mais projetos dessa natureza. Assim, em 2010, lançamos um segundo livro, O Reinado de Bené, desta vez ficção infantojuvenil, baseado nas memórias de mestres de irmandades de Nossa Senhora do Rosário de Divinópolis (MG). Realizamos também o projeto de vídeo Memória.doc, em Divinópolis, com a gravação e publicação na web de 25 idosos que contaram suas histórias de vida. Após estes projetos, foi aberto o edital de Pontos de Cultura de Minas Gerais, e então criamos a proposta que comportasse o abrigo de todo o acervo de histórias de vida que vinha sendo montado a partir das pesquisas dos projetos anteriores. Foi criado, então, o projeto Museu da Oralidade.

Em 2010, dentro das atividades do Ponto de Cultura, a partir do uso de um saldo residual do orçamento, resolvemos oferecer uma oficina de canto para uma apresentação de roda de ciranda no quintal da casa onde funcionavam as atividades do Ponto. Então foi criado um grupo de cantoria popular nomeado Balaio de Minas. O idealizador do grupo, o músico Ronildo Prudente, trouxe um repertório de canções de roda e improviso da tradição brasileira. Nesse meio tempo, conseguimos a aprovação, com o Balaio de Minas, na edição de 2013 do prêmio Culturas Populares. Então optamos por adquirir equipamentos básicos de estúdio e fazer uma oficina com o Coletivo Digital para que pudéssemos gravar as canções do grupo. Em 2015 tivemos a aprovação do Balaio de Minas no Prêmio Cena Minas, na categoria de Dança, e fizemos uma investida num novo espetáculo de rua, com direção de Cristiano Meirelles, do Instituto Brincante, de São Paulo, e repertório todo autoral, de Ronildo Prudente.

Em 2016, resolvemos investir no projeto Mestres no Estúdio, financiado pela categoria de Pontos de Cultura do Fundo Estadual de Cultura. O grupo Balaio de Minas fez as gravações em parceria com os mestres de cultura popular, conforme dito anteriormente. Desse projeto nasceu a iniciativa Estúdio Móvel, entendendo que o estúdio do Museu da Oralidade não necessariamente precisa ter um ponto fixo para funcionar.

O Museu da Oralidade Estúdio Móvel é uma iniciativa que registra a memória e a musicalidade de mestres de cultura popular e grupos de tradição oral, com base em Três Corações, no Sul de Minas Gerais, e atuação em cidades vizinhas como Cambuquira, Varginha, Machado, Lambari, São Bento Abade e São Thomé das Letras. O projeto conta com equipamentos de gravação de voz e instrumentos, como microfones condensadores e direcionais, computador portátil, gravador de voz, monitores e interface de áudio e outros acessórios.

Com a nossa metodologia de memória oral, formatada a partir de diversas pesquisas in loco nas comunidades do nosso entorno e com base em leituras teóricas sobre o tema, convidamos mestres e grupos de cultura popular com os quais nos identificamos para fazer o projeto. Após agendamento de visitas à casa dos mestres, registramos a história de vida dessas pessoas, a partir de um questionário semiestruturado que segue a ordem cronológica e busca a história das tradições orais pelo ponto de vista do entrevistado.

Essas entrevistas são armazenadas no nosso acervo, que reúne dezenas de áudios, textos transcritos, fotografias e vídeos dessas entrevistas, formando o projeto Museu da Oralidade. Elas também servem de base para canções originais, as quais são gravadas por nossa equipe com participação dos mestres e dos integrantes dos grupos de cultura popular dos quais fazem parte.

Como exemplo, no projeto Mestres no Estúdio, registramos a história de vida de seis mestres que moram em Três Corações, Cambuquira e São Bento Abade, cada um representando uma expressão da cultura popular: Dona Roxinha (Terço de São Gonçalo), Vicente Lima (Catira), Albino Reis (Congado), Edinho do Samba (Escola de Samba) e Jaime Darcy e Adair (Folia de Reis). Cada um desses mestres teve sua história de vida gravada pela equipe, em entrevistas nas suas respectivas casas, durando em torno de uma a duas horas, e possibilitando que eles lembrassem causos, lendas, memórias de infância e juventude e histórias dos lugares onde viveram.

Os depoimentos de cada um deram origem a uma composição feita por Ronildo Prudente. Gravamos no nosso estúdio uma guia, que entregamos aos mestres para que eles pudessem ouvir e se acostumar com a canção, para depois receberem nossa visita e gravarem conosco as músicas que falam de suas próprias vidas. Destaque-se que as canções respeitaram os ritmos de cada um: a música "Mestre Vicente", por exemplo, foi no ritmo de catira, e assim por diante. Com as gravações, que contaram com a participação dos mestres, fizemos a mixagem no computador e lançamos o álbum como produto final, distribuído em CD para os grupos e também disponibilizado pela internet.

O Museu da Oralidade Estúdio Móvel nasceu da necessidade de registro das canções que faziam parte dos projetos da Viraminas, em que compusemos diversas canções inspiradas na cultura popular local para espetáculos, apresentações e oficinas. Desde o início, trabalhamos com software livre, usando Linux Debian e programas como Ardour, Audacity e Kdenlive para edição de áudio e vídeo.

O encontro dos grupos e mestres de cultura popular com uma experiência baseada na tecnologia gera muita curiosidade e cria uma possibilidade muito interessante de trocas de conhecimentos e de valorização da autoestima desses grupos e mestres. No caso da dona Roxinha, por exemplo, uma rezadeira de 94 anos, a visita para registro da história de vida virou um evento em sua casa, com a presença de parentes próximos e convidados mais íntimos.

Quando recentemente levamos o estúdio para o quintal do senhor Walter, responsável pelo Terno de Nossa Senhora do Rosário de Machado, demos a oportunidade do senhor Onofre, sanfoneiro de 83 anos, gravar em estúdio pela primeira vez na vida. Esta gravação, aliás, não aconteceu da forma como eles imaginaram inicialmente, com todos tocando e cantando junto, mas usando a técnica tradicional de estúdio em pistas separadas. Situações como estas aguçam a curiosidade de idosos, que se mostram interessados e valorizam também o conhecimento dos mais jovens, fortalecendo as trocas intergeracionais e trazendo um respeito mútuo.

Agradecimentos

  • Gustavo Augusto, do Terno de Congo de Nossa Senhora do Rosário de Machado (MG)
  • Elaine Castro, do Terno de Congada Rainha das Águas, de Lambari (MG)
  • Walter, do terno de congo de Lavras (MG)
  • Terno de Congo de Guapé (MG)
  • Platinny Paiva

  1. Vissungo e angu: história e memórias dos moinhos de fubá no alto jequitinhonha. https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/download/9878/9828