Guia: o primeiro passo da gravação

Durante as duas últimas semanas, tivemos o primeiro passo nas gravações propriamente ditas do CD de finalização do projeto Mestres no Estúdio. Nosso compositor Ronildo Prudente criou a canção Dona Roxinha, cuja guia foi recém-gravada em nossa sala.

A guia é o primeiro registro, ainda despretensioso, da canção. Com ela, ajusta-se o tempo, para não deixá-la muito rápida nem lenta demais, e começa-se a pensar no arranjo como um todo. Abaixo segue um trecho da nossa primeira guia.

A partir desta gravação, encaixaremos outras vozes e, possivelmente, outros instrumentos — embora a ideia seja, de fato, uma canção mais seca. Já está acertado com as filhas e uma neta de nossa mestra rezadeira a vinda aqui no estúdio. Elas farão parte do coro e de alguns solos.

Tempo para experimentação


Nos horários livres, há que se experimentar as possibilidades de gravação do estúdio para explorar as ferramentas à disposição. Nesta quinta, pela manhã, a gravação do rap de Léo Vinícius agitou a casa.

A opção pelo software livre

Mais do que registrar memórias e compor, editar e mixar músicas no estúdio e lançar produtos culturais concretos, nosso projeto trabalha na perspectiva da experimentação destes processos — ou seja, valorizamos o processo como um resultado em si. Inclui-se neste contexto a opção pela utilização de softwares livres, em especial o pacote Ardour, um aplicativo do segmento DAW — digital audio workstation (estação de trabalho com áudio digital, em inglês) — capaz de gerar arquivos musicais de altíssima qualidade.

ardour

A filosofia do software livre — ou de código aberto, como alguns preferem — vai além da ideia da gratuidade. Softwares livres são programas de computador que tem o código-fonte liberado por seus respectivos programadores para estudo, distribuição e modificação para quaisquer fins. Em outras palavras, os aplicativos podem ser livremente alterados por qualquer pessoa que tenha conhecimento para tanto, instalados pelos usuários quantas vezes e em quantos computadores se queira e utilizados para qualquer propósito. É uma contraposição ao modelo dito proprietário — aquele mantido pelas grandes indústrias corporativas –, em que há uma série de restrições, desde as financeiras — pagar para usar — até políticas — vedação de uso em determinados países “inimigos”.

Naturalmente que, por suas características, o mercado de software livre é mais democrático, aberto à concorrência e à solidariedade. O entusiasta e programador Eric Raymond resumiu a comparação entre as duas filosofias de produção, distribuição e consumo de software (livre e proprietária) na metáfora A Catedral e o Bazar — título da obra em que exemplifica as diferenças entre um modelo rígido e centralizado e outro, volátil e pulverizado. Utilizar, distribuir e promover o uso de softwares livres significa dar mais oportunidades, gerar mais empregos, mais autonomia e mais empreendedorismo. Daí a importância de estímulo público a essa potente cadeia produtiva.

Para além da questão econômica, existe o impacto cultural da filosofia do código aberto. A filosofia do software livre extrapolou a área da informática e contaminou a produção cultural como um todo, com a proliferação das chamadas licenças livres — entre as quais se inclui a iniciativa Creative Commons. Atualmente, filmes, livros, álbuns de música e tantos outros conteúdos são distribuídos livremente na internet, com possibilidade de recriação do conteúdo alheio, desde que autorizado previamente pelo autor. Tanto que o Ministério da Cultura do Brasil reconheceu, no início da era Gilberto Gil, a cultura digital — termo usado para encampar essa filosofia — como uma das diretrizes das políticas públicas da área. O programa Cultura Viva se lançou à aventura de fomentar o cibermundo colaborativo e, neste macrocontexto, o Museu da Oralidade foi reconhecido como Ponto de Cultura — numa longa história que nos traz até aqui.

Nos próximos meses entramos em mais um capítulo dessa novela de experimentação e criatividade com nossa imersão no mundo da cultura popular e das artes digitais. Mais do que os simples resultados finais, esperamos compartilhar também mais aspectos dos bastidores, como trouxemos nesta postagem.

Primeiros passos do Estúdio

Dona Roxinha, benzedeira de Cambuquira
Dona Roxinha, benzedeira de Cambuquira

Começaremos na próxima semana a série de visitas aos mestres da cultura popular da região de Três Corações que fazem parte do projeto Imersão Criativa – Mestres no Estúdio. A primeira das entrevistas será com dona Roxinha, de Cambuquira, que na última sexta-feira completou 93 (!) anos de idade. Por opção da família, faremos a entrevista na casa dela.

Natural de Cambuquira, dona Roxinha, como é conhecida, é benzedeira há pelo menos cinco décadas. Atualmente benze apenas bebês, para tirar cobrero e quebranto, e, quando perguntada sobre lembranças do passado, é ajudada com muita gentileza pelas filhas e netas. Foi criada no bairro da Lavra, onde também foi mãe de leite de cerca de 20 crianças da vizinhança. Participou ainda de ternos de congado e é uma das figuras mais respeitadas no que se refere à memória da comunidade.

Bem vindos ao estúdio do Museu da Oralidade

Alô, mundo! Estamos começando o projeto Imersão Criativa: Mestres no Estúdio, do Ponto de Cultura Museu da Oralidade. Nossa proposta é criar na sede da Viraminas um espaço de experimentação artística, envolvendo música e cultura popular, com a participação de mestres de cultura popular da região de Três Corações.

Para interagir conosco, convidamos cinco mestres tradicionais que vão compartilhar suas histórias conosco. Vamos gravar e disponibilizar trechos dos áudios para aqueles que nos acompanharem por aqui. O compositor Ronildo Prudente vai compor canções junto com os mestres, e então começa um processo de gravação e mixagem usando softwares livres. Toda a experiência será compartilhada neste espaço.