Visita ao mestre Vicente Lima, da Catira

Vicente Lima, violeiro e poeta, de São Bento Abade
Vicente Lima, violeiro e poeta, de São Bento Abade

Nesta quarta-feira demos sequência ao projeto com mais uma visita, desta vez ao mestre Vicente de Paulo, ou Vicente Lima, do grupo de catira de São Bento Abade. Poeta, violeiro e contador de causos nato, Vicente tem grande presença de espírito. Emposta bem a voz para narrar os fatos, sabe usar bem as palavras para chamar a atenção e, claro, floreia um ou outro trecho da estória — tem licença poética para tal.

Ainda jovem, seu Vicente caçava animais com grupos de amigos — 90% dos bichos que viu não existem mais, garante. Expulso da escola aos 11 — por excesso de travessura –, calçou o primeiro par de sapatos apenas aos 16 anos.  Por ordens do pai, foi trabalhar na roça ainda adolescente, onde formou caráter e de onde tirou (e ainda tira) inspiração para os versos que escreve e fala de improviso.

Com ajuda de mais dois irmãos, Vicente comanda o grupo de catira da cidade. Conta que incorporou outras batidas de viola, como o cururu e o pagode, à dança, que até então se limitava à moda campeira. Apesar do talento para compor versos, o violeiro não cria músicas: “toda vez que tento fazer uma música, fica igual outra que eu já canto no grupo”.

As histórias de Dona Roxinha

Nesta última terça-feira, 28, o projeto Mestres no Estúdio visitou a rezadeira e parteira Maria Roxinha, de 93 anos, moradora de Cambuquira. Foi a inauguração — em grande estilo, aliás — da fase de coleta dos depoimentos.

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Maria Roxinha, em entrevista ao Museu da Oralidade, no projeto Mestres no Estúdio

Com a ajuda de duas filhas e de amigas, Roxinha rememorou boas histórias que guarda na memória. São relatos inspiradores, que remontam a outros tempos, em que as dificuldades do mundo eram outras. Neta de escrava liberta pela lei do ventre livre, ela nasceu em um fazenda de Três Corações, onde o pai trabalhava na capina e em outras tarefas da roça. Ainda criança, mudou-se para Cambuquira, onde aos nove, meio que por acaso, ajudou no primeiro parto, de uma vizinha. A intocada fé católica ajudava no trabalho, com as rezas entoadas para que tudo corresse na mais serena tranquilidade.

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As rezas, aliás, são a principal razão para que Roxinha ficasse conhecida nas redondezas. Cobreiro, alergias, infecções de pele e outros males do gênero foram curadas a partir da interferência de dona Maria. Bastava rezar para que os enfermos se curassem em poucos dias. Tanto que ainda hoje, aos 93 anos, o serviço continua rendendo a presença de visitantes em busca de um alento para doenças. Roxinha conta que, em suas rezas, não evoca nenhum santo intermediário, mas fala direto com Deus.

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As histórias, entretanto, vão além das rezas. Dona Roxinha participou de festas de folia de reis, congado e terços de São Gonçalo, além de encenar peças de teatro na juventude. Marido? “Não tive, graças a Deus”, diverte-se.

Dona Maria Roxinha, em entrevista ao Museu da Oralidade, no projeto Mestres no Estúdio
Dona Maria Roxinha, em entrevista ao Museu da Oralidade, no projeto Mestres no Estúdio

Nas próximas semanas, como parte do projeto, trabalharemos com a transcrição completa do áudio, para podermos estudar o material e aprofundar na pesquisa de história oral. O músico Ronildo Prudente já está trabalhando na composição de uma canção, que será gravada em nosso novo estúdio, com base nas histórias contadas pela personagem.

Outros quatro personagens participarão deste projeto, que nos próximos meses vai revirar a cultura popular da região de Três Corações.