Tempo para experimentação


Nos horários livres, há que se experimentar as possibilidades de gravação do estúdio para explorar as ferramentas à disposição. Nesta quinta, pela manhã, a gravação do rap de Léo Vinícius agitou a casa.

Breve relato do Mais Cultura nas Escolas

Peço licença para comentar, neste blog, o relato de outro projeto, que está chegando aos finalmentes. Na falta de outro local mais adequado, entendi que aqui poderia ser um espaço ideal para esta postagem. É que hoje foi o último dia deste semestre do projeto Fotografia e Valores Humanos, aprovado no edital do Mais Cultura nas Escolas pelas colegas Maria Helena Dias e Daisy Duarte em parceria com a Escola Municipal Rotary. O projeto havia começado ano passado, mas devido a um contingenciamento de verbas que paralisou o programa em todo o Brasil, só voltou a funcionar este ano. Durante o tempo parado, a fotógrafa Maria Helena se mudou para São Paulo e, por isso, me convidou para ocupar seu lugar como instrutor de fotografia para estudantes da faixa de 13 a 15 anos.

Além da perda da monitora, a paralisação provocou uma quebra no cronograma previsto inicialmente. A primeira turma, que iniciou ano passado, já havia se formado sem terminar todas as aulas e foi necessário reiniciar tudo do zero, porém com metade do tempo pensado inicialmente.

A proposta é, resumidamente, a seguinte: transmitir e discutir valores humanos considerados universais, como, por exemplo, cooperação, gentileza e aceitação da diversidade; para, em seguida, ensinar os jovens a fotografar a comunidade do entorno da escola. A prática, entretanto, deixou a desejar, pois o cronograma pela metade impediu que aprofundássemos nas discussões que tinham (também) como objetivo quebrar padrões de preconceito que envolvem beleza, cor de pele, profissões, local de moradia e coisas do gênero. Diante do tempo, no entanto, não há como negar que houve um avanço na capacidade de articulação e posicionamento crítico dos adolescentes — embora seja sempre desejável que queiramos mais.

Mas a dinâmica também trouxe bons resultados. Embora o grupo tenha se reduzido aos poucos (começamos com nove alunos e terminamos com quatro, com frequência variável), observamos algumas que noções de fotografia foram bem absorvidas, como as tão conhecidas regra dos terços e teoria das cores, além do funcionamento do obturador e do diafragma, com suas respectivas implicações sobre objetos em movimento e profundidade de campo. O trabalho com improvisos na câmera do celular (obrigado, Manual do Mundo!) e quatro saídas pelas ruas do bairro para fotografia foi aos poucos despertando a criatividade e o olhar para detalhes que antes passavam despercebidos.

Nas duas últimas aulas, um processo de edição da fotografia revelou uma carência que teve relação direta com a questão do cronograma: o excesso de fotografias que os estudantes fizeram de si próprios, em contraposição à falta de imagens do cotidiano da comunidade. Usando o software livre RawTherapee, partimos de 605 fotografias para chegar a 27. Esse processo contou com dois filtros: o primeiro, livre, em que marcamos com uma estrela as fotos que mais agradavam ao grupo. Contando com muitas repetições e algumas imagens tecnicamente incompreensíveis, logo chegamos a 73. Então categorizamos as fotos (veja algumas abaixo), usando a ferramenta de marcação por cores que o programa oferece, e então tivemos o seguinte placar: do grupo (25); comunidade (13); pessoas (12); natureza (12) e “abstratas” (11).

Do grupo

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Pessoas

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Comunidade

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Abstratas

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Natureza

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A contagem foi ótima para aguçar a percepção sobre os temas que mais pesaram nas escolhas do grupo. Decidimos em conjunto que teríamos dez fotos das categorias comunidade e pessoas, e apenas três das demais — clicamos cada foto, então, com duas estrelas no RawTherapee. Não foi tão doloroso assim, os próprios alunos reconheceram a necessidade de ser mais objetivo e perceberam alguns cliques desconectados do propósito do projeto. Marcamos mais uma saída, para depois das férias, quando combinamos de fotografar os ofícios presentes no bairro.

 

 

A opção pelo software livre

Mais do que registrar memórias e compor, editar e mixar músicas no estúdio e lançar produtos culturais concretos, nosso projeto trabalha na perspectiva da experimentação destes processos — ou seja, valorizamos o processo como um resultado em si. Inclui-se neste contexto a opção pela utilização de softwares livres, em especial o pacote Ardour, um aplicativo do segmento DAW — digital audio workstation (estação de trabalho com áudio digital, em inglês) — capaz de gerar arquivos musicais de altíssima qualidade.

ardour

A filosofia do software livre — ou de código aberto, como alguns preferem — vai além da ideia da gratuidade. Softwares livres são programas de computador que tem o código-fonte liberado por seus respectivos programadores para estudo, distribuição e modificação para quaisquer fins. Em outras palavras, os aplicativos podem ser livremente alterados por qualquer pessoa que tenha conhecimento para tanto, instalados pelos usuários quantas vezes e em quantos computadores se queira e utilizados para qualquer propósito. É uma contraposição ao modelo dito proprietário — aquele mantido pelas grandes indústrias corporativas –, em que há uma série de restrições, desde as financeiras — pagar para usar — até políticas — vedação de uso em determinados países “inimigos”.

Naturalmente que, por suas características, o mercado de software livre é mais democrático, aberto à concorrência e à solidariedade. O entusiasta e programador Eric Raymond resumiu a comparação entre as duas filosofias de produção, distribuição e consumo de software (livre e proprietária) na metáfora A Catedral e o Bazar — título da obra em que exemplifica as diferenças entre um modelo rígido e centralizado e outro, volátil e pulverizado. Utilizar, distribuir e promover o uso de softwares livres significa dar mais oportunidades, gerar mais empregos, mais autonomia e mais empreendedorismo. Daí a importância de estímulo público a essa potente cadeia produtiva.

Para além da questão econômica, existe o impacto cultural da filosofia do código aberto. A filosofia do software livre extrapolou a área da informática e contaminou a produção cultural como um todo, com a proliferação das chamadas licenças livres — entre as quais se inclui a iniciativa Creative Commons. Atualmente, filmes, livros, álbuns de música e tantos outros conteúdos são distribuídos livremente na internet, com possibilidade de recriação do conteúdo alheio, desde que autorizado previamente pelo autor. Tanto que o Ministério da Cultura do Brasil reconheceu, no início da era Gilberto Gil, a cultura digital — termo usado para encampar essa filosofia — como uma das diretrizes das políticas públicas da área. O programa Cultura Viva se lançou à aventura de fomentar o cibermundo colaborativo e, neste macrocontexto, o Museu da Oralidade foi reconhecido como Ponto de Cultura — numa longa história que nos traz até aqui.

Nos próximos meses entramos em mais um capítulo dessa novela de experimentação e criatividade com nossa imersão no mundo da cultura popular e das artes digitais. Mais do que os simples resultados finais, esperamos compartilhar também mais aspectos dos bastidores, como trouxemos nesta postagem.