São Julião tem encontro de cultura quilombola

Na última semana tivemos mais um encontro para discutir e celebrar a cultura popular. Desta vez, em São Julião, uma comunidade quilombola dentro do município de Teófilo Otoni, no Vale do rio Mucuri, nordeste do estado. É onde nasceu Pereira da Viola, músico muito reconhecido pelas pesquisas que faz envolvendo a literatura oral na região. Tanto que Pereira é a grande referência na comunidade, que tem em sua família, ainda muito presente, uma liderança política e comunitária de atuação destacada.

São Julião é um lugar afastado, a duas horas de carro de Teófilo Otoni, com mais de 40km de estradas de terra. O local tem como núcleo um centro comunitário, com um galpão, um campo de futebol e um bar onde, além de jogar sinuca, os moradores podem cortar o cabelo. É nesse centro que aconteceram todas as atividades do encontro, como as oficinas de Carlinhos Ferreira (de construção de rabecas), Eda Costa (bonecas Abayomi) e de Viola Silva (de brincadeiras infantis).

Detalhe da rabeca na oficina de Carlinhos Ferreira
Detalhe da rabeca na oficina de Carlinhos Ferreira
Brincadeira
Crianças participaram da oficina de brincadeiras infantis

A convite do produtor Bruno Bento, ministramos duas atividades como parte da programação do encontro: uma roda de conversa sobre a trajetória do Museu da Oralidade e uma gravação colaborativa do estúdio móvel. Segundo o Bruno comentou, a questão do registro da memória oral é urgente no local. Os primeiros moradores que ocuparam a região já se foram e deixaram pouquíssimos registros, alguns gravados por Pereira ou por amigos. De fato, é preciso que a comunidade e os apoiadores, como no caso dos organizadores do evento, pensem juntos maneiras de reunir material sobre a literatura oral, que é vasta: cantorias, histórias, lendas, opiniões, visões de mundo — e várias outras manifestações arraigadas nas relações entre familiares e vizinhos.

Comunidades como São Julião são um vasto terreno para se descobrir e fazer circular registros de oralidade. Tudo ali é musical: na cozinha, na varanda, no quintal, qualquer conversa vira uma roda de cantoria. No entanto, qualquer pesquisa feita por ali precisa estar comprometida com os pesquisados, tanto na concepção do projeto quanto na divulgação dos resultados. Há uma queixa, muito visível nas conversas informais, de que pesquisadores acadêmicos levam o conhecimento e deixam muito pouco em troca. É um mal sinal, embora não seja exclusividade daquele local.

Na roda de conversa, apresentamos algumas possibilidades de registro já executadas ao longo de nossos oito anos de projeto. Uma em especial pode ser pensada para São Julião: o mutirão de histórias de vida. Esse tipo de ação reúne um número razoável de pessoas, que discutem uma metodologia comum a ser adotada e participam de uma breve formação. Saem a campo juntos, em esquema de colaboração, dividem-se entre as casas dos moradores e reúnem em dois ou três dias um número muito grande de horas de gravação. O material pode virar livro, exposição ou vídeo, conforme as necessidades e possibilidades que o local oferece. Pode ser uma alternativa, por exemplo, para que o centro comunitário ganhe um espaço dedicado à memória local.

Independente da questão da memória, São Julião aparenta ter algumas conquistas interessantes de cidadania. Reparei que as casas tem cisternas para captação de água da chuva, a escola rural é bem conservada e tem acesso à internet via satélite, os adolescentes (pelo menos os que conversei) estudam na cidade vizinha (embora nem sempre o ônibus passe). Interessante foi perceber também que não parece haver uma monocultura predominante, tem de tudo um pouco. Do ponto de vista econômico, a impressão é de que há o que melhorar. Talvez a chegada de mais modernidades possa contribuir, daí a importância do trabalho com a identidade local para que a transição aconteça de forma saudável e sem ameaçar a vida em harmonia que aparentemente reina ali.

O evento contou ainda com uma noite de baile, ao som de forró (meio arrocha, não sei muito bem o que era), e outra de encontro de violeiros, sob o comando de Pereira e amigos. Acho válido relatar que a noite do arrocha causou antipatia em alguns dos convidados, que queriam uma noite mais “de raiz”, menos “de massa”. No entanto, a escolha não parece ter desagradado nem um pouquinho a comunidade local, que dançou por horas com um frenético revezamento de casais a cada música. Não me agrada quando urbanos intelectualizados criticam esse tipo de escolha por parte da comunidade local. Em algum momento, vi colegas induzindo os moradores locais a dizerem que não gostam daquele tipo de música — embora estivessem todos lá dançando. O ruim disso é que, por um lado, a linha que separa a cultura popular da cultura de massa é, muitas vezes, tênue, e nem sempre uma exclui a outra. Por outro, a modernidade chega de uma forma ou de outra, para o bem e para o mal, e não há como ter um filtro completo sobre o que pode e o que não pode entrar na vida dos outros.

Abaixo segue o vídeo do Estúdio Móvel. A gravação é da música Pintassilgo, do colega Ronildo Prudente. O violão foi gravado por Rangelito e o pandeiro pelo Zorra. Agradecimento especial a todas as crianças e os colegas que toparam participar.

Pintassilgo – São Julião de Paulo Morais no Vimeo.